03 setembro 2014

Em Nenhum Lugar

O garçom acaba de me emprestar uma caneta. De quebra, perguntou se eu não queria papel também. Acho que sentiu pena. Ou vai ver a política do estabelecimento dita que os guardanapos são caros demais pro freguês gastar assim - escrevendo. Resolveu desabafar, problema é seu.
Faz frio lá fora, a fresta debaixo da porta de vidro do bar me faz lembrar. O chá é branco, algo tão tosco quanto escolher o item mais barato do cardápio só pra ter o direito de ocupar uma cadeira.
As outras mesas estão lotadas. Todo mundo em duplas; em três; todo mundo de quatro. O mundo se juntou pra rir da minha descompanhia (sic). Já a música, acho que se trata de um ritmo repetitivo que nenhum cantor quis cantar - não há cantor. Deve ser um tango misturado com bolero, se é que isso pode existir. 
A mesa ao lado chamou a garçonete. Trocaram a garrafa de vinho por uma tacinha - pois é quinta e ainda precisamos ser humildes. No diálogo, a moça de guardapó dita a carta - tem suave, branco, tinto, tem merlot. "Ah, diz de novo merlot", pede a freguesa descarada. Ela diz. "Mas escuta, guria. Tu não é daqui, é?". Tão óbvio que desejei eu responder. "Eu sou do Rio de Janeiro", esfregou o sotaque. "Ah, então fala dezesseis." E, claro, como uma boa atendente que faz jus ao salário mínimo, ela falou. Depois, trouxe o vinho. A tacinha. A cliente percebeu uma sujeira na borda do copo - ai, que é isso. Enquanto ela retorna com uma taça nova, me pergunto quantas bocas já beijei nesta xícara de chá, quantas bocas já beijei esta noite?
Desviei a audição do zoológico, voltei a me concentrar na música. Agora, com cantor. Ele rasteja por uma batida pegajosa, suja, grudenta, resvalante. Me imagino em um quarto preto, eu danço no escuro pra fugir. Lento, braços pendentes como se fossem ondas. Lá não chega mais gente, lá não lotam as mesas, lá não há nada. E é lá onde eu queria estar.
Afastaram os guardanapos. A outra mesa precisava de mais... Tá bom. Agora que chego no fim do papel, percebo: quis escrever sobre nós, mas não nos encontrei. Coincidência ou não, não me encontrei também. Em nenhum lugar.

30 julho 2014

Com você

Meus cadernos pareciam gritar. As canetas enfiadas dentro daquele pote, então, pareciam fazer de tudo para chamar a minha atenção. Não escrevia havia meses. Não rabiscava para ti havia quem sabe um ano. E, apesar de declarar o meu amor diariamente, não sujava o papel para dizer quaisquer palavras. Eis que me rendi.
Eu queria era dizer que com você eu me tornaria no que fosse preciso para ser alguém melhor. Desde usar roupas mais condizentes até deixar os meus trejeitos infantis de lado. Com você eu enfrentaria todos, sem nem mesmo saber onde acabaríamos, mas feliz por ter tua companhia independente de qualquer coisa. Eu venceria (alguns dos) meus medos, conheceria novos lugares, reinventaria os antigos e faria dos domingos um dia agradável - por te ter.
Com você eu até mesmo abriria mão das minhas meias no inverno, tudo para te encontrar de um jeito meio tosco debaixo das cobertas. Eu iria a várias festas, eu engoliria o meu passado para só vomitá-lo quando você quisesse saber. Onde? Quem? Por que?
Eu gravaria a nossa viagem até a lua, mesmo sabendo que, tão cedo, o máximo que conseguiríamos seria um passeio de final de semana para uma cidadezinha próxima. Com você eu brigaria e saberia que até mesmo o gostinho de te perder me faz te querer mais ainda. E descobriria que quando brigamos é quando, na verdade, mais quero te beijar.
Descartaria tristezas e dramas - a maior parte, ao menos; Insistiria no mesmo perfume por saber que é o gosto que você tem de mim; Buscaria novos desafios, sairia da mesmice e espantaria a acomodação; Te daria orgulho; Morreria de orgulho de volta; Ligaria de noitinha pra desejar boa noite, ciente de que o mesmo ritual todos os dias não cansa: reforça; Traçaria planos que para mim fossem atuais, e talvez para ti um pouco futuros; Daria um jeito de, cedo ou tarde, colidir nossos mundos. Mais ainda.
Escreveria mais textos, muitos deles. Borraria a caneta, sujaria os dedos, acabaria com a folha sem ter tempo de continuar te dizendo tudo o que seria capaz. Até porque, antes que as linhas cheguem ao fim, com você eu 

26 fevereiro 2014

Tem uma idade...

Tem uma idade em que começa a se pensar que todas as outras idades foram um acúmulo de aprendizados. O seu pai estava certo quando disse que estava e você não acreditou. A sua mãe disse que já tinha passado por isso e você nem mesmo deu importância. Tem uma idade em que tudo aquilo se torna óbvio.
Tem uma idade em que a festa do final de semana é trocada por um pijamão sem grandes discussões, que a segunda-feira se torna o dia favorito para sair de casa com a melhor roupa do armário e que o cabelo curto parece combinar mais, soar menos chamativo. Tem uma idade que você percebe que chamar a atenção é uma furada e tanto.
Tem uma idade em que você começa a perceber que ele ou ela nem eram "tudo aquilo" e que, pra ser sincero, você nem estava tão afim assim. Tem uma idade em que o salto perde alguns centímetros, que a gola V se transforma em gravata, e que na geladeira só tem coisa sem graça pra comer. Tem uma idade em que você nem mais sabe o que é brigadeiro de panela e quer mesmo é voltar no tempo.
Tem uma idade em que o perfume não é mais importado, que o carro tão sonhado quando criança na verdade é um popular que te salva nas piores horas, que o arranhão no pescoço é do gato tipo animal mesmo, ou então do marido descuidado. Tem uma idade que sexta-feira é sinônimo de descanso e que final do mês é sinônimo de fechar os olhos pra qualquer vitrine.
Tem uma idade em que você desejou ter essa idade. Tem uma idade em que parece que forjaram o seu bolo de aniversário - ontem mesmo as velas eram 18, hoje já chegam aos 42. Tem uma idade em que nada disso acima é chato, e que se soar chato é porque você apenas não chegou nessa idade ainda. 
Tem uma idade em que tudo é divertido, e essa idade eu nem sei qual é. Talvez sejam todas as idades, e o que mude sejam as pessoas, os locais, os acontecimentos. Tem uma idade em que você começa a perceber que o destino é tão piada quanto Papai Noel - o destino mesmo é teu nome do meio. 
Tem uma idade em que acontece isso. Tudo isso. E olha que eu nem cheguei aos 30 pra saber do resto.